Vinte anos do festival que fez de uma cidade uma conversa

Durante quatro dias mornos e dourados de setembro, quando o verão já começa a se retirar de pontinho pelas ruazinhas de pedra, a cidade de Segóvia voltou a se tornar algo mais que um lugar: foi atmosfera, foi palavra dita e ouvida, foi pausa no meio da vertigem. Ali, entre conventos que ainda cheiram a silêncio antigo e praças onde a história não terminou de se escrever, realizouse a vigésima edição do Hay Festival Segóvia.

O que começou há vinte anos como uma aposta discreta — quase uma carta de amor à conversa tranquila em tempos que já então pareciam acelerados — acabou se consolidando como um dos encontros literários e culturais mais singulares do âmbito hispano e europeu. Não por seu tamanho nem por seu ruído, mas exatamente pelo oposto: pelo tom pausado, elegante, profundamente humano que soube preservar desde o seu nascimento. 

Cristina Fuentes La Roche, diretora internacional do Hay Festival, costuma dizer que este festival tem algo de europeu na alma, e que suas raízes não foram plantadas para um dia, mas para durar. E a gente sente que é verdade quando vê como os anos foram deixando não apenas lembranças, mas marcas: leituras debaixo das tílias, sussurros de poesia na rua, instalações artísticas que desafiavam a geometria do cotidiano, e vozes que, sem levantar a voz, disseram coisas que ainda ressoam em quem as ouviu.

Hay Segóvia (2024)

Este ano, o festival decidiu olhar no espelho da Europa. Mais de cem convidados de dezesseis países distintos compareceram não para dar lições, mas para pensar juntos: sobre o futuro do continente, sobre a fragilidade da democracia, sobre o lugar da arte num mundo que cada vez parece mais feito por máquinas.

E foi justamente numa dessas conversas — na sala capitular da IE University, antigo convento Santa Cruz la Real — que se escutou a pergunta que pareceu atravessar todo o festival como fio invisível: Está em perigo a criatividade humana? Lançoua ao ar Jorge Corrales, e a acolheram com cuidado Nerea Blanco, Carmen Páez e Miguel Ángel Serrano, como quem recebe entre as mãos algo frágil e valioso. Porque falar de inteligência artificial e cultura já não é exercício de futurismo: é urgência que toca a literatura, a música, o cinema; a própria forma como contamos o que somos.

Não houve alarmismo, mas sim uma lucidez compartilhada: se o humano há de sobreviver, será na forma como respira, duvida e escreve com erros. Esses erros benditos que nenhum algoritmo pode imitar.

Carmen Páez — subsecretária do Ministério da Cultura — trouxe ao centro do debate algo que costuma ficar de lado: os direitos de quem cria. Não falou com grandiosidade, mas com clareza: o que está em jogo, disse ela, não é apenas o resultado final, mas toda a cadeia do processo criativo. E por parte do Estado, a proposta não é reagir com alarme, mas proteger com inteligência: proteger todos os envolvidos, desde a fagulha inicial até a obra concluída. Porque se algo ameaça com a inteligência artificial, não são as máquinas nem os leitores, mas aqueles que, há séculos, sustentam o mundo com palavras: os autores.

Hay Segóvia (2025)
Hay Segóvia (2025)

Lá fora, enquanto isso, a cidade continuava respirando como se nada tivesse mudado. Segóvia tem esse jeito dela de escutar as ideias sem interromper, de oferecer sombra a quem reflete e ruas de pedra a quem precisa caminhar para pensar melhor. Nesta cidade, falar de futuro não soa a arrogância, mas a ritual: aqui tudo se filtra primeiro por séculos de pedra, e o que permanece é o que realmente vale.

Porque não é a mesma coisa sentir poesia numa sala moderna de conferências do que recebêla ao cair da tarde, sob luz oblíqua de praça onde o ar ainda cheira a séculos e os pássaros interrompem sem pedir licença. Em Segóvia, cada conversa carrega o peso da história, mas também a leveza de uma sesta recém terminada.

A cidade, cenário centenário de guerras, casamentos reais e fornos a lenha, se entregou ao festival como se este fosse uma festa discreta da inteligência. As palavras viajaram pela Plaza Mayor até o Teatro Juan Bravo, cruzaram os claustros do antigo convento, subiram à torre de Lozoya e pousaram em bancos públicos como o banco dançante, uma instalação que transformava cada passante em parte da obra com o simples movimento do corpo.

Hay Segóvia (2024)
Hay Segóvia (2024)

Nada no festival acontece por acaso, mas nada parece forçado. A poesia não se impõe: deixase encontrar. As conversas não ditam: dialogam. As ruas não correm: respiram. É, como diz Cristina Fuentes, um espaço para a conversa lenta em tempos velozes, e um antídoto contra a polarização e o ruído. Nas suas palavras: “Os festivais de literatura e ideias jogam papel fundamental para conversar sobre a maravilhosa complexidade de ser humanos.

E assim foi que no último dia o festival não se despediu com fogos de artifício nem grandes declarações. Despediuse com uma conversa intitulada, com ternura irônica, Un fracaso muy humano, com Leonardo Padura e Santiago Herrero rindo um pouco de tudo, inclusive de si mesmos, e lembrando que a arte não busca perfeição, mas sim o tremor.

Talvez por isso, ao ir embora, a gente não sente que participou simplesmente de um evento. Sente que esteve dentro de um estado de alma. Que durante quatro dias, em Segóvia, a palavra se tornou casa. E essa casa, de pedra velha e pensamento vivo, permanece aberta para quem chegue sem pressa e com os ouvidos despertos.


Juan Quintero Herrera é um contador de histórias nascido na América (na Colômbia), com fortes vínculos com o Brasil, Portugal e o mundo lusófono. Publicou dois livros de ficção e também dirigiu dois curta-metragens. Um apaixonado pelo jornalismo cultural, pelas boas crônicas e pela psicologia.

Unknown's avatar
Publicado por:

Deixe uma resposta